RAPHAEL ESCOBAR.
  • dentro | inside
  • txt
  • ø
  • bio
  • fora | outside
Picture
Os bodes adoram brincar
por Pedro Nery


Reunir no Parque Ibirapuera plantas usadas pela humanidade há séculos para produzir substâncias que alteram a consciência revela a condição original natural e sua associação com a cultura e o consumo de drogas. Vegetais que foram domesticados centenas de anos atrás, selecionados e trabalhados – entre plantar, colher e extrair, há outras etapas, como fermentar, secar, refinar – para transformar em substâncias viciantes entre as mais comuns, e que hoje são processadas pela indústria alimentícia para o consumo na maior parte do planeta. A obra de Raphael Escobar é composta por quatro dessas plantas: café, cana-de-açúcar, cevada e tabaco. São insumos legalizados para produção e consumo em nosso país, que nos colocaram entre os líderes mundiais de colheita, e cuja história sócio-econômica está atrelada ao passado de colonização que tinha na plantation escravista sua principal receita.

Os bodes adoram brincar retoma parte importante da pesquisa de Escobar a respeito das regras morais e legais vigentes na sociedade brasileira, que exploram o embuste da riqueza de uma indústria agrícola baseada nesses produtos altamente viciantes e potencialmente alteradores de consciência, em contraposição ao tratamento desumano legado aos indivíduos que consomem outras drogas. Escobar é também fundador de diversos coletivos e movimentos sociais na região da Cracolândia como o Pagode na Lata, atuando no centro de São Paulo, responsável por usar o samba como meio de criar uma economia solidária. É a partir dessas atuações como artista e ativista que se mesclam no trabalho para reorientar a dimensão crônica dessa situação.

Ao caminhar por entre as plantas da obra, encontra-se um banco redondo que sugere um ponto de encontro em roda, oferecendo um espaço de ativação coletiva, no qual refere-se ao ato de compartilhamento social e cultural em um espaço público. Assim, desdobra-se, para além da representação das plantas que circundam o banco: cria-se um espaço intimista e avesso a ordem lógica do Jardim de Esculturas, se opondo aos largos vazios com obras que sobressaem no espaço a partir de um ponto fixo como elemento da paisagem.

É possível compreender Bodes adoram brincar como uma ocupação no Jardim de Esculturas. Nela, há uma remissão à lógica de trabalhos e pesquisas da geração tropicalista, expressos, por exemplo, nos parangolés de Oiticica ou Os Espaços Imantados de Lygia Pape, nos quais a obra ocorre mediante um corpo coletivo marginalizado do museu, que é presentificado. Na obra de Raphael Escobar, mais do que representar uma cultura coletiva, há uma revogação do espaço moderno do museu, colocando todo o conjunto museu-jardim-parque em suspensão. Isso decorre da ética vigente de exclusão social por meio do ato do consumo de drogas evocado pelo conjunto da obra, marcando como fundamento de uma sociedade opressiva no presente e no passado.

A circunstância social que as plantas revelam está na anedota do título, aludindo aos bodes que comiam grãos de café e ficavam agitados pulando, e foi a partir daí que se resolveu extrair a cafeína. O consumo de café, açúcar, cerveja e cigarro já foram proibidos e aceitos em momentos diferentes. O que se mantém perene, segundo Escobar, é o seu consumo. A obra vale-se, assim, das plantas como conceito histórico e representação atual, enquanto o seu centro é emulador do convívio numa comunidade cercada. De fora vemos as plantas, mas seu simulacro é onde a brincadeira se torna viva.
The goats loves to play
by Pedro Nery



Gathering plants in Ibirapuera Park that humanity has used for centuries to produce consciousness-altering substances reveals their natural, original condition and their association with culture and drug consumption. These plants, domesticated, selected, and processed over hundreds of years – from planting, harvesting, and extraction to fermentation, drying, and refining – have been transformed into some of the most common addictive substances, now processed by the food industry for global consumption. Raphael Escobar's work comprises four of these plants: coffee, sugarcane, barley, and tobacco. They are legalized inputs for production and consumption in our country, which has made us leaders in their cultivation, with a socio-economic history tied to the past of a slave-based plantation economy.
"Os bodes adoram brincar" (The goats love to play) revisits an essential part of Escobar's research into the moral and legal rules prevailing in Brazilian society. These rules exploit the wealth of an agricultural industry based on highly addictive and potentially consciousness-altering products while subjecting individuals who consume other drugs to inhumane treatment. Escobar is also the founder of various collectives and social movements in the Cracolândia region, such as "Pagode na Lata," operating in downtown São Paulo, which uses samba to create a solidarity economy. It's through these roles as an artist and activist that the work blends to redirect the chronic nature of this situation.
As you walk among the plants in the installation, you'll find a round bench suggesting a gathering point, offering a space for collective activation, referencing social and cultural sharing in a public space. Beyond the representation of the surrounding plants, an intimate space emerges, challenging the logical order of the Sculpture Garden, in contrast to the open spaces with artworks that stand out as fixed points in the landscape.
​

"Bodes adoram brincar" can be understood as an occupation within the Sculpture Garden. It recalls the logic of works and research from the tropicalist generation, expressed, for example, in Oiticica's "parangolés" or Lygia Pape's "Magnetic Spaces," where the work occurs through a marginalized collective body outside the museum, which becomes present. In Raphael Escobar's work, there's more than representing a collective culture; there's a revocation of the modern museum space, suspending the entire museum-garden-park complex. This stems from the prevailing ethics of social exclusion through drug consumption evoked by the work, marking it as a foundation of an oppressive society in the past and the present.
The social context revealed by the plants is in the anecdote of the title, alluding to goats that consumed coffee beans and became agitated, and from there, the extraction of caffeine was resolved. The consumption of coffee, sugar, beer, and cigarettes has been prohibited and accepted at different times. What remains constant, according to Escobar, is their consumption. The work thus uses plants as a historical concept and current representation, with its core emulating community life within its enclosure. From the outside, we see the plants, but their simulacrum is where the play comes to life.



Proudly powered by Weebly
  • dentro | inside
  • txt
  • ø
  • bio
  • fora | outside